ENTREVISTA: Os desafios de Appio Tolentino à frente da Suframa

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ENTREVISTA: Os desafios de Appio Tolentino à frente da Suframa

Laize Minelli

 

Engenheiro, advogado e mestrando em Direito Constitucional pelo Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas (CIESA), Appio Tolentino ocupa um dos cargos mais importantes da região Norte, desde agosto de 2017 é o superintendente da Zona Franca de Manaus (ZFM).

 

Com vasta experiência em cargos públicos, já atuou no Tribunal Regional do Trabalho e (TRT) e na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) como professor em Piscicultura e Aquicultura nas área de Ciências Agrárias, também foi gerente de comercialização do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal do Amazonas (Idam) e é especialista em direito tributário.

 

Na entrevista abaixo, Appio contou como tem sido os entraves à frente da Suframa, o que espera para os próximos anos e qual o perfil do novo profissional para atuar na ZFM.

 

 

CIESA: Quais são as transformações que o processo da Indústria 4.0 trouxe para a ZFM?

Appio Tolentino: “A indústria 4.0 automatiza tudo, com isso você tem uma redução muito grande de custo. A mão-de obra que ela vai utilizar é mais especializada, por isso vai ser mais cara, mais treinada e em número bem menor. O que que vai acontecer é que essas pessoas que perdem o emprego com a chegada da indústria 4.0 tendem a se empregar em outras áreas que abrirão por conta desse processo. Com o aumento da produção, redução de custos, abrirão mais lojas, mais atividades na área de serviços. Gera desemprego da indústria mas atividades em outros setores da economia”.

 

 

CIESA: Quanto ao profissional, o que ele precisa fazer para se adaptar a essa nova realidade de exigências do mercado profissional?

Appio Tolentino: “Quanto mais ele se especializar, melhor. A maioria das pessoas que estão nascendo hoje terão profissões inéditas no futuro, muitas outras tendem a sumir. A pessoa precisa ter a sensibilidade de escolher áreas ligadas à Tecnologia da Informação (TI), não pode mais se esquivar disso, tem que se especializar, e outra coisa, o domínio de vários idiomas é essencial.

 

CIESA: Quanto à redução dos incentivos fiscais, pauta do novo governo, como o senhor vê essa situação para o Amazonas?

Appio Tolentino: “Essa é uma questão altamente preocupante. A nossa margem de competitividade é mínima, porque nós estamos isolados, não temos estradas, nossos rios não são balizados, essa história de falar “Ah, nossos rios são nossas estradas, é conversa”, não são! Para as nossas estradas serem os rios eles precisariam estar balizados, navegáveis o ano inteiro para que o transportador pudesse ter segurança, o preço cair, então estrada é estrada, rio precisa virar hidrovia, tá certo?”.

 

CIESA: Então seria um risco grave perder ou diminuir os incentivos...    

 

Appio Tolentino: “Primeiro vamos falar de segurança jurídica. É um risco muito grande para o investidor quando ele tem intenções de aplicar os recursos dele numa região como a Amazônia e de repente as regras mudam no meio do jogo, o que aconteceu, por exemplo, com a redução do crédito da indústria de concentrados foi terrível, foi um risco para a segurança da ZFM. Se hoje reduz o incentivo do concentrado, amanhã pode reduzir do polo de duas rodas, do eletroeletrônico, ninguém sabe. Eu entendo a política do atual ministro da economia, Paulo Guedes, tá certo? mas nós estamos indo na contramão, enquanto o mundo tenta proteger a sua indústria nós estamos entregando a nossa. É isso que estamos fazendo, estamos deixando de defender nossas indústrias por conta de um pensamento liberal da equipe econômica do governo, tá certo? Eu acredito que a Zona Franca de Manaus tem prazo certo, uma hora tem que acabar, mas antes que ela acabe assim, rapidamente, de surpresa, nós precisávamos criar mecanismos de sobrevivência, precisávamos ter um domínio maior da nossa biodiversidade.

 

ENTREVISTA: A Indústria 4.0 e as habilidades do novo profissional

 

CIESA: Quais são os mecanismo que a Suframa tem adotado para dar novas alternativas aos empresários?

Appio Tolentino: “Transformar os nossos rios em hidrovias não depende da gente, asfaltar a BR 319 não depende da gente, asfaltar a rodovia Trasamazônica não depende da gente, tá certo? Nós estamos divulgando rotas alternativas como a rota de Taypá, Piura e Yurimaguas, no Peru, que nos livra do canal do Panamá. Novas logísticas que estão surgindo com nossos vizinhos da América Latina. Se nós tivesses um porto alfandegário em Tabatinga, a mercadoria, nossos insumos já entrariam no Brasil e eles poderiam ir direto para as fábricas, não precisaria esse custo adicional de armazenagem nesse portos como o Chibatão. Tem também a rota de Manta, que faz Acre e Porto Velho, por terra, tudo ligando o pacifico à Amazônia, entoa nós precisamos gerar esses instrumentos de redução de custos, de produção na ZFM para aumentar a nossa competitividade. Uma outra coisa que precisamos fazer é conversar com todos os nossos vizinhos, com todos os estados da Amazônia Legal e com a PanAmazônia, conversar com o Peru, Colômbia, passada essa crise na Venezuela nós vamos precisar conversar e nós precisamos vender mais, comprar mais entre nós.

 

 

CIESA: Como tem sido o controle ambiental na sua gestão?

Appio Tolentino: “O Amazonas é o único estado da região que conserva 98% da sua capa florestal original em pé. Isso se deve ao modelo ZFM, porque é um modelo de fábrica sem chaminés, nós só aprovamos tanto na Suframa quando no governo estadual se tiver, antes, as certidões dos órgãos de controle ambiental. A questão ambiental é a maior moeda que o governo do estado do Amazonas tem para negociar a ZFM e pra fazer pressão internacional para a manutenção desse modelo aqui pelos próximos 50 anos”.

 

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CIESA: Qual a sua perspectiva para o cenário da ZFM nos próximos 10 anos?

Appio Tolentino: “Primeiro temos que manter nossa competitividade. Não dá para tirar os incentivos da ZFM e ficar por isso mesmo. Isso é desrespeitar objetivos da constituição brasileira: reduzir desigualdades regionais, tá certo? Nós precisamos ficar de olho na reforma tributária, temos que ter um programa como o que a Suframa criou de atração de investimentos e fazer visitas a essas empresas e convencê-los a trabalhar na ZFM para substituir importação.  São 51 anos e 475 empresas industriais, é pouquíssimo, tínhamos que ter umas duas mil, temos que ser proativos e mais audaciosos, isso não pode ser feito só pela Suframa, mas pela Sudam, agências de desenvolvimento, governo, temos que unir todo mundo.”